23 abril 2008

Qabalah e Thelema



























































































































Texto de Leândro Gaia (Frater Centaurus)



Há na Natureza duas forças que produzem um equilíbrio, e os três são= simplesmente uma única lei. Eis o ternário resumindo-se na unidade e, juntando-se a idéia de unidade à do ternário, chega-se ao quaternário, primeiro número quadrado e perfeito, fonte de todas as combinações numéricas e princípio de todas as formas. (...) O tetragrama cabalístico: Yhvh, exprime Deus na Humanidade e a Humanidade em Deus.
(Eliphas Levi, in Dogma e Ritual da Alta Magia)



(...) 7. Pois duas coisas estão feitas e uma terceira coisa se inicia. Ísis e Osíris cederam ao incesto e ao adultério. Hórus salta triplamente armado do ventre de sua mãe. Harpócrates, seu gêmeo, está oculto dentro dele. Set é sua aliança sagrada, que ele deverá exibir no grande dia de MAAT, que está sendo interpretada pelo Mestre do Templo da A:.A:., cujo nome é Verdade.

8. Agora, nisto é o poder mágico conhecido.
(Aleister Crowley, in Liber A'ash vel Capricorni Pneumatici)




Do what thou wilt shall be the whole of the Law


Nada mais difícil do que pretender discorrer sobre um assunto tão complexo, intrincado, polêmico e explana-do por grandes mestres do que a Qabalah. Esta tradição esotérica que tanto permeia as filosofias e ope-rações dos magistas da história tem origens tão obscuras quanto dogmáticas. A versão mais conhecida é a suposta recepção desta por Moisés, que teria recebido-a de Deus no monte Sinai como um código secreto para a interpretação dos cinco livros da Lei Judaica. Alguns outros defendem a idéia de que ela tenha sido revelada pelos anjos a Adão para que este pudesse voltar ao Paraíso depois do pecado original. O que se sabe em termos históricos é que a Qabalah surgiu em conseqüência de um longo e complexo desenvolvimento que se iniciou com o Misticismo Merkabah.

Merkabah (carruagem em hebraico) foi a primeira forma de misticismo judaico, anterior à Qabalah como conhecemos hoje. No século II (E.V.) houve uma fusão de um grande número de tendências, como afirma Gerson Scholem: "A Cabala, do ponto de vista histórico, pode ser definida como um produto da interpretação entre o Gnosticismo Judaico e o Neoplatonismo". Durante este período, existiam o Gnosticismo Cristão,
o Gnosticismo Judaico, o Neoplatonismo, o Neopitagorismo, o Hermetismo (filosofia pseudo- egípcia) e muitos cultos obscuros, todos permeando-se de maneiras sutis. Idéias de todas estas religiões e filosofias acabaram por constituir o que hoje se conhece como Qabalah Hermética.

A raiz da palavra Qabalah é a expressão hebraica QBL, que significa "da boca para o ouvido", o que reforça a noção de tra=dição oral como sua principal forma de transmissão durante toda a antigüidade. Também signi-fica revelar e receber, o que enfatiza sua profunda relação com a descoberta da Natureza Interior. A verdade é que traços desta que hoje entendemos como hebraica podem ser encontrados desde os primórdios da hu-manidade, nas culturas Sumeriana, Egípcia e Babilônica. Também muito do que forma sua atual estrutura vem de documentos escritos e publicados por filósofos, magos e sacerdotes da antigüidade, o que desmistifica a noção de ser uma tradição puramente oral.

Todas estas tradições acabaram por ser incorporadas e sintetizadas no documento conhecido como Sepher Yetzirah, que é um sumário das primeiras idéias do misticismo judaico, mas cuja origem é controversa, em-bora seja uma obra que descreve a criação do Universo em termos de letras do alfabeto hebraico e de núme-ros simbólicos indubitavelmente relacionados ao Neopitagorismo. Mais tarde, no início da Idade Média, surgia o Sepher-ha-Bahir, que contém a primeira referência a uma "Árvore Secreta" a às Sephirot como recipientes da Luz Divina.

A partir de então, outros documentos surgiram (como o Zohar) e a Qabalah foi se desenvolvendo em todo o decorrer da Idade Média, sendo utilizada e "reformulada" pelos Médicis (diz-se que inclusive, = sob seu patrocínio, é que surgiu o "casamento" da Qabalah com o Tar= ô), os Rosa-Cruzes e até pelo criador do sistema Enochiano e Mago da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, John Dee. O surgimento da Aurora Dourada, no movimento ocultista do final do séc. XIX, trouxe a Qabalah novamente à luz, fazendo-a chegar inclusive aos conhecimentos do então futuro Arauto do Novo Aeon, a Grande Besta 666, Aleister Crowley. É através da luz desta "nova" interpretação que explanaremos o funcionamento da dinâmica das esferas e caminhos nesta que é a ciência que engloba a todas as outras.



Love is the law, love under will





As Sephirot e a Árvore da Vida

A compreensão de todo o sistema preconizado pela Qabalah, quando já dividido e categorizado, parece sim-ples e bem definido com suas manifestações já sedimentadas e absolutizadas. Na verdade ele não é. A frag-mentação das manifestações é apenas um artifício usado para melhor compreensão e aplicabilidade do siste-ma. A Qabalah é um sistema contínuo, interdependente, fluído e indivisível. Nenhuma Sephirot ou atributo existe por si só, mas apenas como um reflexo e receptáculo de uma complexa gama de reações em cadeia de diferentes vibrações e gêneros ressonando como uma manifestação do TODO e do NADA, em princípios opostos equilibrados pela sua síntese.

A especialização das esferas (Sephirot) nada mais é do que o reflexo dos diferentes níveis de consciência e manifestação desta nos planos do real. Esta noção é fundamental no sentido de fazer o leitor a perceber a ilusão de todo o sistema. Ele não é absoluto, mas sim um mero alfabeto que auxilia o magista na hora de mi-nistrar e interpretar suas experiências. Qualquer coisa pode ser relacionada neste alfabeto e as esferas po-dem ser preenchidas ao gosto do operador, levando em consideração apenas sua natureza intrínseca. Este é o grande diferencial entre a Qabalah Hermética e a Judaica. Enquanto a primeira é um sistema interrelacio-nável pragmático onde tudo pode ser sincretizado com tudo, a Judaica é dogmática no sentido de encarar as esferas como manifestações de Deus próprias e não correspondentes às outras culturas e panteões.

Como estudo nada mais é do que método, e como toda esta complexidade já foi organizada para nossa faci-lidade, começaremos agora a detalhar e esclarecer cada nível e esfera da Árvore da Vida.





Ain Soph Aur (O Nada)

Antes da primeira manifestação de existência (Kether, a primeira esfera) existe um conceito extremamente abstrato cuja compreensão não pode ser delimitada exclusivamente à elucubração racional. É a não- exis-tência, o não ser que antecede a toda a Criação, o caos imanente de onde se auto-gerou o primeiro princípio. Ele é chamado de Ain (nada), Ain Soph (sem limite), Ain Soph Aur (luz sem limite). Não podemos esperar de início compreender sua vastidão de não existência brincando com palavras, podemos apenas esperar captar um leve e breve vislumbre do que ele seria, para que isto se desenvolva conosco até nosso crescimento de consciência pleno. Como a própria Bíblia diz: "No começo, não havia nada".

Nisto é que está o véu do não ser, o Nada Absoluto que se densificou num ponto mínimo e imensurável de contração gerando a primeira explosão da manifestação que é a Coroa (Kether). É como se houvesse uma relação sexual entre o Nada-Totalidade ("feminino"= ) com o Nada-Indivisibilidade ("masculino"), gerando o "Um̶= 1; perfeito e resumitivo de todo o processo. Recorramos à matemática para auxílio: 0º=1; sendo 0 = (...-3, -2, -1) + (+1, +2, +3...). O zero, portanto, pode ser entendido como a totalidade, já que é a soma do infinito positivo com o infinito negativo. É como se houvesse o processo inverso do de criação de um buraco negro, sendo este último o acesso para o retorno às origens do universo (lembrando sempre que o significado da palavra "religião" é religar-se).

Crowley identificou em seu panteão duas "deidades" relativas= ao Ain Soph Aur: Nuit e Hadit. Nuit, a Grande Deusa do Céu Noturno que curva seus membros abraçando toda a Terra, que é representada pela noite es-trelada, seria o Nada-Totalidade, a Noite de Pan. Hadit, seu parceiro, representado pelo Globo Solar Verme-lho e Alado, seria o Nada-Indivisibilidade, a estrela interior de cada ser humano indestrutível e pessoal. Parafraseando o Livro da Lei: "Todo homem e = toda mulher é uma estrela (Hadit)" no céu azul noturno de Nuit. Porém, quanto mais falarmos sobre este tema, mais complicado e difícil ele se tornará. Cabe aqui apenas o conselho da meditação para que tenhamos uma "noção" inicial do que isto poderia ser.




1. Kether (Coroa)

A palavra Kether significa Coroa, e esta esfera representa a realeza no seu sentido pleno de onisciência, onipresença e onipotência. É a primeira manifestação surgida do Nada, o primum mobile (primeiro movimen-to), e é relacionável com Deus, o Princípio. Um de seus símbolos é o ponto, o que nos faz refletir sobre sua ainda extrema abstração. É relacionada com o Sahasrara Chakra, o chakra que se localiza acima da cabeça, e talvez por isso a denominação de Coroa. A consciência plena deste chakra, que resulta da elevação da Kundalini (Energia Sexual), a Serpente, é o Samadhi dos Budistas, o Nirvana dos Hindus.

A correspondência de todas as esferas da Árvore da Vida com o corpo humano nos leva a uma conclusão ao mesmo tempo extasiante e assustadora para alguns: Deus é o Homem e o Homem é Deus. Digo assustadora porque muitas pessoas fogem desta responsabilidade imensa, que é carregar todo o Universo nas costas, apenas pelo fato de nossa consciência mundana não estar aperfeiçoada o suficiente (e é aí que entra a Magia e a Meditação) para tal.

Este princípio inicial e final da existência, que também tem a suástica como representação, juntamente com a próxima esfera, que é Chokmah, forma o mundo de Atziluth da Qabalah, o mundo do Fogo do Puro Espírito, representado pelo naipe de paus do Tarô. É aqui que se encontram os Arquétipos.

Crowley chamava este mundo de Cidade das Pirâmides, e relacionou à esfera a "deidade" Ra-Hoor-Khuit,
uma referência à mudança de e= ras e ao assumir do Trono de Ra do deus-falcão solar egípcio que traria
seu gêmeo Hoor-par-kraat (Harpócrates) como a existência oculta dos dois universos (positivo e negativo). Como aqui ainda reinam as abstrações, mais elucubrações seriam inúteis.




2. Chokmah (Sabedoria)

A esfera de Chokmah (trad.: Sabedoria) é a primeira esfera de divisão da dualidade. É o princípio masculino por excelência, o grande falo do Universo. Seu número é dois e sua representação é a reta, a união de dois pontos. É a energia masculina do Espírito que se direciona para todos os lados como que num grande impulso de poder visceral de criação, o Yod do nome YHVH. Deus, O Pai, é relacionado a essa esfera. Esta força imensa, a qual Crowley chamou de Chaos e identificou Therion (a Besta) na sua forma mais pura, será constringida e absorvida por Binah, a próxima esfera, a primeira feminina, e fecundará seu ventre para
gerar o Universo manifesto.

A Esfera do Zodíaco é uma simbologia desta Sephirot, que está no topo da coluna masculina, ou Pilar da Misericórdia, e é a força e a energia criativa. O deus Hindu Shiva é relacionado a essa esfera que, junta-mente com a Coroa, encerra o mundo do puro espírito, da consciência que transcende o eixo espaço-tempo.




3. Binah (Compreensão)

Situa-se em oposição a Chokmah, sendo a esfera da constrição, da forma, no topo da coluna feminina, ou Pilar da Severidade. É o receptivo do fluxo intenso do princípio masculino, sendo a "Grande Mãe" por excelência. Inicia e encerra aqui o mundo cabalístico de Briah, a Água, e é representada pelo naipe de
copas no Tarô. É o útero arquetípico do Universo, o primeiro He de YHVH.

Esta é a esfera de Saturno e é a última antes do abismo de Daath. A deusa Kali, a decapitadora de homens,
é relativa a esta Sephirot. Aqui é a realidade onde se atinge a primeira consciência absoluta do Universo e
é relacionada com Ajna Chakra, o "terceiro olho". Cr= owley identificou nela a Grande Deusa Nossa Senhora Babalon, a Prostituta da Babilônia, noiva do Chaos (Chokmah) e mãe das abominações (o abismo e o univer-so manifesto).

É bom ressaltar aqui que essa dualidade de esferas, que se dividem em pilares feminino e masculino, não deve ser encarada com raciocínios maniqueístas de bem e mal. Todos os opostos na Qabalah são neces-sários como extremos de um equilíbrio sempre transcendido em uma esfera que resume ambos. Não é possível haver construção sem destruição, nem vida sem morte, nem tudo sem nada. Todas as manifes-tações, das mais refinadas e contidas às mais grosseiras e abomináveis são, sem escala de valores, manifestações do Divino que se relacionam com o Altíssimo. Nada é verdadeiro, tudo é permitido.
Passemos agora para Daath, o Abismo.




11. Daath (o Abismo)

Creio que, após o Ain Soph Aur, o Abismo de Daath, a décima primeira esfera, é o tema mais complexo e difícil de ser explanado. De certa forma, ele engloba tudo aquilo que pode ou poderia ser uma explanação, verbalização, manifestação perceptível, conclusão, preceito ou dogma. Aqui é que se encontra a hipertrofia de toda a ilusão do Universo e de todas as esferas abaixo dele, que vão de Chesed (4) a Malkuth (10). É Visudhi Chakra, o Chakra do pescoço, que, segundo os Hindus, é onde são gerados os pensamentos. Aqui é o habitat de Mara, o senhor da ilusão segundo os Budistas, ou Choronzon, o monturo de lixo do Universo de cuja travessia nasce o Magister Templi, segundo Crowley.

A travessia do Abismo é dever de todo aquele que pretende chegar à consciência máxima do Ser, e é aqui que se vence toda a mentira da existência. Daath é considerada uma "esfera que não é esfera", = pois sua função é o desviar da atenção da verdade inexprimível através do pensamento. É o deserto de Apep, o inimigo de Osiris que precisa ser derrotado por este último para sua ressurreição. Aqui também estão os demônios da Goetia, os Qliphot, e os cinqüenta nomes de Marduk.

É como se houvesse uma dobra na Criação que criasse a divisão da realidade na ilusão do espaço e do tempo através daquilo que foi gerado em Binah. É o princípio do Universo manifesto reinado por Júpiter, que é a esfera de Chesed. A não aceitação da existência desta ilusão é que causa a queda e subseqüente falha na travessia em direção à deificação. Novamente aqui encaramos uma grande abstração, já que tudo que estamos fazendo aqui refere-se, de uma forma ou outra, a Daath.




4. Chesed (Misericórdia)

Esta é a quarta esfera da Árvore da Vida e a primeira abaixo do Abismo. Aqui se inicia o mundo de Yetzirah,
o mundo do Ar, o astral e reino do intelecto e dos valores morais. Este mundo é representado pelo naipe de espadas do Tarô.

Esta é a esfera de Júpiter, de Zeus. Aqui está Deus, o Misericordioso. Ela se opõe a Geburah, a esfera da força e da severidade, ambas sendo equilibradas por Tipheret, o Sol. Aqui estão os atributos da construção, do perdão e da soberania filosófica. Júpiter constrói em cima do que Marte (Geburah) destrói.

Aqui encontram-se a proteção, a sorte e a jovialidade. A demasiada concentração nesta esfera, no entanto, leva à auto-indulgência e à hipocrisia. É a esfera da expansão, sendo a regente dos movimentos de massa e das filosofias. Encontra-se no meio do Pilar da Misericórdia.

A partir de agora, os conceitos tornam-se mais simples e próprios, já que entramos no plano do inteligível e segmentado. Partamos agora para Geburah.




5. Geburah (Força)

É a esfera de Marte, regente das guerras, da justiça e da vingança. É a destruição, encontrando-se no meio do Pilar da Severidade. Equilibrando-se com Chesed, formam a força motriz da realidade manifesta. Como já dito antes, não há construção sem destruição, e vice-versa. Aqui encontram-se os relativos a tudo que o termo "marcial" pode invocar: a energia violenta, a determinação e a rígida disciplina. A força sexual é também atributo de Geburah.

Geburah nos ensina que às vezes é necessário sofrer certas dificuldades que mudam nossas vidas, nosso caráter. Chesed ajuda a retomar a estabilidade após estes eventos, e reconstruimo-nos a partir das cinzas do velho.




6. Tipheret (Harmonia)

Esta é a esfera central da Árvore da Vida, equilibrando Chesed e Geburah, sendo também o centro do Pilar do Meio, cujo topo é a Coroa (Kether) e a base é o Reino (Malkuth). Tipheret é o coração do rei e do reino. É o Sol e a Verdadeira Vontade, o Eu Superior de cada indivíduo, o Vau de YHVH.

Seus atributos são a beleza e a harmonia, podendo também dar a vida com o calor do sol tanto quanto destruí-la. A palavra Thelema (vontade) é a expressão máxima desta esfera, sendo que aqui está o Sagrado Anjo Guardião, cujo conhecimento e conversação dão ao magista a plenitude na Terra, sendo ele então senhor da realidade manifesta. É o Plexo Solar, ou Anahata Chakra.

To Mega Therion (A Grande Besta 666), a Vontade Solar-Fálica e o Eu Supeiror (que é o Anjo Guardião), é a expressão máxima de Tipheret. Aqui estão relacionados também Cristo, Buda e demais iluminados da humanidade. Aleister Crowley deu extrema atenção ao trabalho relativo ao Sol em sua carreira, sendo ele mesmo identificado com esta esfera como a Besta 666.

Sendo aqui a Verdadeira Vontade, princípio ativo da criação e expressão, aqui também está o princípio da Magia Sexual que, completo com Agape (amor), que é o princípio passivo e formativo da criação, são a base das técnicas sexuais de criação de elementais, como um reflexo do sexo superno de Chokmah e Binah. O Sol e Lua (esfera de Yesod) são os fenômenos perceptíveis dos opostos complementares da geração e gestação do Universo.




7. Netzach (Vitória)

Netzach é a esfera de Vênus, a esfera da emoção, do amor e da comunicação com os elementais e o astral. Relaciona-se com os sentidos e paixões, com a emoção de viver, o desfrutar de paixões instintivas. Netzach é tudo da personalidade que é espontâneo e instintivo, sendo sua experiência espiritual a Visão da Beleza Triunfante. Está na base do Pilar da Misericórdia, equilibrando-se com Hod (Mercúrio, o intelecto) no Pilar da Severidade.

Vênus, Afrodite e demais deusas de beleza e amor feminino são relacionadas a esta esfera. A deusa Oya (Iansã) do Candomblé também é Netzach, assim como Ogun é Geburah (Marte), Ossaguiã é Tipheret (Sol) e Xangô é Chesed (Júpiter). Innana, que é Ishtar, também é Netzach. É importante destacar aqui que o grande mérito de todo este sistema da Sagrada Qabalah é a possibilidade de entendimento de todos os panteões como aspectos, em essência, análogos às manifestações da Verdade Suprema. Tudo acaba sendo inter-relacionável com tudo.




8. Hod (Glória)

É a esfera de Mercúrio, a esfera da razão e do intelecto. É o regente da Magia, da Fala, do Comércio e da Dissimulação, dos ladrões e gatunos. Fica na base do Pilar da Severidade e é o Mensageiro dos Deuses, o deus Thoth egípcio, que é Hermes Trimegistro.

É, portanto, Exú, o dono dos caminhos e encruzilhadas e portador do Axé divino. Sendo a Mente Racional, é incapaz de emoções, pois o intelecto frio e astuto é seu atributo principal.

Sendo equilibrado com Vênus (Netzach), é importantíssimo como escriba e comunicador, sendo o Senhor e Conhecedor da Magia Ritual, bem como o enganador e falsário. Ambas as esferas, Hod e Netzach, são equilibradas pela próxima esfera, Yesod, a Lua.




9. Yesod (Fundação)

Yesod significa fundação pois relaciona-se à mente subconsciente, que é o alicerce, a fundação da persona-lidade, sendo também a substância etérica que é a fundação da vida. Seu astro é a Lua, que reflete para nós a luz do Sol. É o feminino complementar de Thelema, ou seja, Agape. Estando entre Tipheret e Malkuth no Pilar do Meio, representa o mundo das fantasias e imaginação, como também a anima mundi, ou alma grupal.

É Suadhistana Chakra, o Chakra do órgão sexual.

As deusas Diana e Ísis são correspondentes a esta esfera, assim como Perséfone (num aspecto mais "mórbido") e Oxum. É a luz astral, impressionável e maleável. É a percepção de que cada indivíduo, por
si só e isoladamente, pode penetrar dentro de si mesmo para perfazer sua evolução e trilhar o caminho da Magia. Sua principal inimiga é a preguiça, pois sem Agape, o indivíduo corre o risco de ficar estagnado em seu caminho.

Yesod encerra aqui o mundo astral de Yetzirah e, após ela, resta somente a última esfera, Malkuth,
o mundo físico.




10. Malkuth (o Reino)

É o mundo físico perceptível pelos cinco sentidos. O último He de YHVH. É a esfera final, que absorve
todas as outras e dá forma física às forças menos materiais. É Deus, o Fim. É o mundo de Assiah da Qabalah, o mundo da Terra, representado pelo naipe de ouros do Tarô. É também a base da Magia Ritual, devido ao simbolismo físico associado às forças mentais e emocionais de Hod, Yesod e Netzach, que procurará elevar o Mago cada vez mais alto em direção ao topo da Árvore. É ao mesmo tempo o portal da Morte, que levará o Mago ao adentrar dos Túneis de Set, a Serpente, que são os reinos inferiores relativos ao Abismo Infernal de Daath, onde o Mago estabelecerá suas raízes para que possa crescer até a copa da Árvore da Vida. Como diz Crowley em Liber Tzaddi: "Que meus discípulos mantenham suas cabeças = acima dos Céus, e seus pés abaixo dos Infernos".

É relativo a Kether no sentido de que um influencia o outro mutuamente através da comunicação e passagem das energias por todas as esferas de cima a baixo e de baixo para cima. Um não existe sem o outro e a alte-ração em um deles causa a alteração nos demais; todo Reino precisa de um Rei, e todo Rei precisa de um Reino. Inclusive, numerologicamente, o número 10 que é referente a Malkuth é o mesmo que o número 1 referente a Kether, pois o 0 é desconsiderado.

A Grande Deusa da bruxaria celta é também relacionável a Malkuth, assim como Obaluaiê ou Omulu no Can-domblé. Aqui é onde estamos para que possamos tomar a consciência do Divino e nos tornarmos o próprio Criador, através da evolução de nossa consciência, poder e clareza de visão. Só assim conseguiremos deixar de ser meros escravos da realidade e do tempo e espaço, nos tornando os verdadeiros artesãos de nossos destinos e conseqüentemente de toda a realidade.




Conclusão



Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei.


Espero que esta pequena explanação em relação à Qabalah e aquilo que é relativo a Thelema tenha sido esclarecedora de algumas dúvidas mais basais sobre o assunto. Como este é um tema infindável e em qualquer esfera as elucubrações podem durar durante anos (quando não forem intermináveis), tentei resumir ao máximo os conceitos de modo que fosse possível dar o máximo de informação em um mínimo de espaço. Não pretendo aqui ser o "dono da verdade", nem mesmo exponho= aqui meus conceitos de maneira inquestionável, porém levei em máxima consideração o bom senso para que este diminuto tratado tenha a profundidade máxima possível.

Gostaria de saber a opinião de todos aqueles que porventura venham a ler este escrito, e espero ter contribuído de maneira positiva à Filosofia Thelêmica, elucidando alguns aspectos ora tabus entre muitos. Minha vontade foi a motriz para a realização deste, e a magia de libertação sua tônica. Agradeço a todos os meus Irmãos de Ordem pelo apoio e oportunidade, especialmente a Frater Piarus X', cujo apoio foi e é fundamental para nossa sobrevivência enquanto Ordem.


Amor é a lei, amor sob Vontade.



Frater Centaurus (Leândro Gaia)


Extraído do site Abrahadabra
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